#1 - Carniça
Um pouco disso e daquilo sobre o fim inevitável, a morte. Parece mórbido e provavelmente seja mesmo, mas sempre gostei desse tema e não gosto de evitá-lo em conversas, mesmo que seja algo difícil.
Do alto, a avenida parecia um riacho cinza; o movimento das pessoas e automóveis, um borrão. Era sexta, dia de feira livre no bairro, e a gritaria dos feirantes tentava sobrepor o buzinaço dos carros carregando motoristas nervosos, que paravam em fila dupla para tomar caldo de cana ou insistiam em tomar aquele caminho mesmo sabendo que toda semana era a mesma coisa. Aos berros de “Abaixou o mamão!” e “Pacote só um real!”, as pessoas caminhavam para lá e pra cá, atarantadas e aglomeradas, divididas entre os legumes e o pastel, as barracas e o mercado chique em frente, que baixava os preços das frutas e verduras justo na sexta-feira só pra competir com o mercado da rua.
De fato, aquilo tudo era só pano de fundo e pouco me interessava. Só estava ali, esperando, por conta do cheiro.
Aquele lugar era um banquete deles.
Havia o cheiro de frango (meu favorito) e de peixe; de fruta podre e madura, e de carne também – porco, boi e humano. Essa última era a que mais fedia (e não do jeito bom, com acontece com os outros animais), mas me serve também, como qualquer carne. Ultimamente, o odor dos humanos podres (ou melhor, das carniças) se tornara ainda mais pronunciado, como se estivessem mortos por dentro.
E, naquela sexta-feira, o cheiro ficou bem mais forte.
Havia uma aglomeração anormal perto da barraca de ovos, e a gritaria não era só por conta do preço dos produtos. Naqueles tempos, não sei por que algumas pessoas usavam máscaras para cobrir o rosto enquanto outras não, mas de onde eu estava dava para ver que tanto os cobertos quanto os descobertos estavam exaltados e voava perdigoto pra tudo quanto era lado. Tive aquele pressentimento que a mãe natureza me deu e nunca falha: algo interessante estava prestes a acontecer.
— Que tá pegando? — perguntou Asa Torta, se aproximando feito uma maldição. Eu detestava aquele cara. De fato, ele era literalmente o que os humanos chamariam de “um urubu”, mesmo que eu considere esse termo ofensivo para a classe.
— As carniças estão brigando de novo, pelo que parece.
— Ah, vá. Que tédio, Pluma. Eu só quero encher o bucho. Cadê o rango?
— Tem uma barraca de frutas mais adiante que já tá recolhendo — comentei, apontando com asa naquela direção. — Tem cheiro de manga podre por lá.
— Opa! Adoro manga.
“Isso, vai lá, babaca. E deixa o prato principal aqui pra mim”, pensei, enquanto Asa Torta planava desajeitado em busca do seu lanchinho. Voltei a observar a discussão das carniças, salivando. Eles estavam se batendo agora, as máscaras emboladas, penduradas nas orelhas, um empurra-empurra delicioso que só podia dar em coisa boa – pra mim.
Esperei… esperei…
Até que BUM!
Um estouro fez a feira silenciar.
Tudo parou por um segundo.
Fiquei na ponta do poste, as asas prontas para o voo.
Em seguida, veio o grito.
E outros. E outros.
E o cheiro.
A aglomeração se uniu e se desfez, como um pulmão se enchendo e esvaziando de ar. Enquanto alguns corriam, outros se aproximavam. Enquanto alguns choravam, aos berros, outros o faziam em silêncio. O riacho de asfalto, que antes era cinza, agora estava vermelho.
Esperar era minha maior habilidade, mas eu também sabia quando devia voar. E foi o que fiz.
Havia tantos outros como eu, famintos, só à espera de carne podre. Nós esperávamos, é o que um urubu sabe fazer. Mas aqueles humanos já eram carniça por dentro há muito tempo.

Escrevi esse conto há uns três anos. Foi num laboratório de escrita, em uma época em que, apesar dos pesares (pandemia mortal, isolamento, governo genocida, vocês sabem), eu ainda estava animadíssima sobre o ato de escrever, fazer contatos, divulgar minhas obras. Estava cheia de esperanças, embora tivesse perdido meu emprego (mas era um emprego horroroso e miserável, e eu mesma pedi demissão, afinal, queriam que eu desse aula para idosos vulneráveis em plena pandemia, longa história). Mas eu estava animada com os trabalhos que surgiam aqui e ali para preparar textos de autores independentes e algumas editoras, pegando firme neles agora que estava desempregada, e mais empolgada ainda com o tempo livre para escrever — agora sim, eu ia dar um jeito nisso depois de, na época, oito anos na estrada (agora já são onze).
Era só para ser um conto que se passasse na rua da minha casa, mas claro que virou algo sobre morte, um tema bem comum nas coisas que escrevo desde sempre (e pessoas escrotas como protagonistas e personagens das histórias, como minha agente Gabi Colicigno costuma dizer, e gosto quando ela menciona isso, porque é verdade).
No momento, quase três anos depois de escrever esse conto, estou revisando um livro também sobre morte. Quando ele me foi passado, perguntaram “você está tranquila com esse tema, sabemos que não é fácil”, e eu CLARO, AMIGA, ADORO, ME PASSA AGORA MESMO. E estou de fato adorando o livro. É pesado? Em alguns momentos, sim, claro. Mas a morte é um caminho natural da vida e todas as pessoas que trabalham com isso fazem algo necessário, mas são, em geral, esquecidas (isso quando não são hostilizadas).
Também estou jogando um game chamado Like a Dragon: Ishin, uma história sobre o Japão da época do xogunato (vocês ainda vão me ouvir falar muito sobre os games dessa série), mas o que importa é que o jogo é repleto de histórias secundárias e elas são uma das partes que eu mais gosto de me envolver. Nesse jogo, houve duas histórias que me tocaram bastante. Na primeira, você precisa acompanhar um artista por toda a cidade; vocês vão juntos no bar, no karaokê e no salão de dança, e você fica basicamente entretendo o cara, e no final ele se vira para você e diz “muito obrigado por isso; foi uma noite extremamente divertida e me fez lembrar como era estar com meu filho”. E você, pera aí, como assim? E daí o homem explica que perdeu o filho muito jovem e você se parece muito com ele; que estava se sentindo sozinho e queria companhia, mas recebeu mais do que isso: uma noite com alguém que o fez se lembrar do filho falecido como se ele estivesse vivo de novo.
A outra história é mais brutal (tem como ficar pior?). Você ouve latidos e corre para ver qual é o problema; acontece que um cachorrinho está tentando proteger seus dois donos idosos de um samurai violento. Só que você chega tarde demais, e o cachorrinho é morto (eu quase atirei o controle na parede nesse momento, mas né, é um controle de PS4, custou 200 reais suados etc.). Porém, enquanto eu fazia a história (dando uma surra muito bem dada com direito a katanas e pistolas no desgraçado), fiquei reclamando o tempo inteiro com meu marido que “como é que o jogo faz isso com a gente, não é possível que o bichinho morreu, eu preferia nunca ter vindo aqui e deixado essa história pra sempre por fazer”. Bem, o cachorro tinha mesmo falecido (eu ainda tinha esperança que não), e o casal de idosos, obviamente, ficaram arrasados. O protagonista fala com o senhorzinho, e ele explica que o nome do cachorro era o mesmo do filho falecido deles e que a esposa, após a perda, tinha ficado muito mal, reclusa e não falava mais nada, e agora ele está preocupado com o quanto essa nova perda vai afetá-la. Ele pede que, se você encontrar uma cerejeira, para avisá-lo, pois gostaria de enterrar o cachorrinho lá, pois a árvore tinha um significado para ele, a esposa e o filho falecido.
Demorei quase o jogo inteiro pra terminar essa história secundária. Ficava evitando, dividida entre estar arrasada por conta do cachorrinho e furiosa com o jogo por ter colocado uma história tão devastadora no meio de tantas outras tão leves (algumas são uma palhaçada completa, adoro). Tudo bem, não foi a primeira vez que teve uma história secundária triste na série, mas um cachorrinho? SÉRIO, MESMO? Aí já é demais, até pra mim. Mas, um dia, cliquei sem querer em um diálogo na fazendinha do protagonista e ativei uma cena em que a filha adotiva dele me contou que a árvore no quintal era uma cerejeira, mas ela não dava flores há muitos anos. Você conta a ela a história dos idosos e pergunta se ela se importaria de um cachorrinho ser enterrado ali, e como ela diz que tudo bem, se isso for fazê-los se sentirem melhor, eu fui atrás do casal de velhinhos.
E aí veio a cena mais bonita do jogo inteiro, incluindo até a história principal: o casal o acompanha até o sítio e vocês enterram o cachorrinho. Todos fazem um silêncio respeitoso e então uma única pétala da cerejeira cai lentamente da árvore. A senhora idosa enfim diz uma única frase “que flor linda”, e o marido dela começa a chorar.

Já passei por algumas perdas na minha vida, e a mais significativa delas foi minha mãe, aos 25 anos (ela tinha 56). Tudo isso me moldou de várias formas, e posso dizer que a Karen de antes disso morreu, assim como outras versões minhas ao longo dos anos. Eu já era interessada no tema e, depois disso, fiquei ainda mais e escrevi várias histórias sobre o assunto. Várias mesmo. Talvez por isso o que eu mais goste de escrever seja terror, horror, thriller…
A morte é um processo que a gente carrega por toda a vida e começa assim que nascemos. Ela chega de formas variadas, e não apenas quando uma vida chega ao fim — vão-se amizades, casamentos, relacionamentos, sonhos, estágios da vida, versões nossas. Tudo isso acaba um dia, ao mesmo tempo que outras histórias começam.
Às vezes, é preciso que histórias morram para que algo novo nasça.

Bem, se você gosta de ler histórias sobre morte e perdas, vou só deixar aqui, como quem não quer nada, o link do meu conto O fim e o começo de todas as coisas, publicado pela Agência Magh. Só pelo título, já dá pra perceber qual é o assunto, né? Ele custa R$ 2,61 ou grátis para quem tem Kindle Unlimited (vai que você conseguiu aproveitar a promoção de R$ 1,99 por três meses, né? Eu não consegui, meu KU tá travado).



Consigo imaginar essa carniça voando na feira na frente da sua casa! Espero que aqui seja um lugar inspirador e de acolhimento, para que volte a se animar com o cheiro das palavras borbulhando nos pensamentos.
A morte em suas variadas versões nos molda, mas morte de bichinho sempre nos faz voltar a ser criança e se indignar pelo derradeiro fim existir!
Bora lá para temporadas de textos maravilhosos!
Adorei a novidade, Ka!! Newsletter trazem a leveza dos primeiros blogs, com menos pressao e mais diversão.
Me identifiquei super com o doguinho do jogo, pq aguento violências com humanos, mas quando vai pra bichinho.... tava vendo jurassic park com dó dos dinossauros ahahhahahahaah